
10.03.10 - 18:49
O Senado aprovou nesta quarta-feira (10) as indicações do general
Raymundo Nonato Cerqueira Filho e do almirante Álvaro Luiz Pinto
para o Superior Tribunal Militar (STM). Durante sabatina do
Senado, no início de fevereiro, o
general afirmou que a tropa não obedece a militar
homossexual. No STM, os dois novos aprovados farão parte de um grupo de 15
ministros militares. Como no Supremo Tribunal Federal (STF), a
aposentadoria é compulsória a partir dos 70 anos de idade. O STM
não soube informar a data da posse, pois o expediente havia encerrado.
Na sabatina de fevereiro, o general e o almirante
foram questionados sobre a admissão de gays nas Forças Armadas.
Luiz Pinto foi mais comedido em sua resposta aos senadores. “É uma situação muito polêmica, mas eu vou lembrar um fato que
aconteceu alguns anos atrás, na França, não nas Forças Armadas,
mas na Igreja, em que foi feita a mesma pergunta. O teólogo
pensou, pensou, pensou e respondeu: ‘Não tenho nada contra,
desde que ele faça uso do voto da castidade, que é um dogma da
Igreja’. Eu acho que fazendo uma similaridade com as Forças
Armadas, eu não tenho nada contra desde que ele [o militar
homossexual] mantenha sua dignidade, a dignidade da farda, do
cargo e do trabalho que executa. Se ele exercer sua dignidade,
sem nenhum problema."
O general Cerqueira, no entanto, foi mais direto
em sua resposta, dizendo-se contrário à presença de gays nas
Forças Armadas. “Tem sido provado mais de uma vez, o indivíduo
não consegue comandar. O comando, principalmente em combate, tem
uma série de atributos, e um deles é esse aí. O soldado, a
tropa, fatalmente não vai obedecer. Está sendo provado, na
Guerra do Vietnã, tem vários casos exemplificados, que a tropa
não obedece normalmente indivíduos desse tipo [homossexuais]”, declarou. Cerqueira sugeriu ainda que as atividade desempenhadas pelas
Forças Armadas não são adequadas a homossexuais. “Talvez tenha
outro ramo de atividade que ele [o militar homossexual] possa
desempenhar”, afirmou durante a sabatina.
'Epero que tenha refletido'
Ao saber da aprovação no Senado, o presidente da Ordem dos
Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcanti, voltou a criticar
as declarações do general sobre homossexuais e disse esperar que
ele tenha “refletido” sobre o que disse. “Esperamos que ele
tenha refletido e não venha a emitir opiniões deste tipo
novamente. Tenho certeza que ele não vai repetir isso. A opinião
dele, podemos reafirmar, foi preconceituosa, discriminatória e
conservadora”, afirmou Ophir ao G1. O presidente da OAB explicou que a aprovação no Senado se atém
aos requisitos constitucionais. “Do ponto de vista objetivo, dos
requisitos constitucionais, o Senado o aprovou porque ele
apresentou os requisitos necessários. Isso não significa que a
opinião dele [sobre homossexuais] seja dominante no tribunal. O
Superior Tribunal Militar é formado por militares e civis e
certamente não espelha esse sentimento”, afirmou.
Na
ocasião das declarações no general na CCJ, OAB classificou o
fato como lamentável. “É lamentável que este tipo de
discriminação ainda continue existindo nos dias de hoje nas
Forças Armadas brasileiras”, disse Ophir, em fevereiro.
A legislação atual do país, conhecida como
'Don't ask, don't tell' (“não pergunte, não
fale”, em tradução livre), proíbe que soldados gays e lésbicas
assumam sua homossexualidade, bem como que eles sejam
questionados sobre isso.
A indicação de Cerqueira Filho foi aprovada por 46
votos a favor e 5 contrários. A de Luiz Pinto, por 40 votos a 4.
Durante a votação desta quarta, os senadores Arthur Virgílio
(PSDB-AM) e Eduardo Suplicy (PT-SP) disseram que o general havia
se retratado da declaração.
Estados Unidos
A polêmica sobre homossexuais nas Forças Armadas
não é exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos, o
tema está em discussão no governo. Um grupo de trabalho
estuda a possível anulação de uma lei de 1993 que proíbe o
ingresso de homossexuais nas Forças Armadas do país.