
08.02.10 - 19:46
Se não for feita com cuidado, a expansão da área plantada para elevar a
produção nacional de biocombustível até 2020 pode forçar criadores de
gado a avançar sobre o Cerrado e a Amazônia, gerando desflorestamento e
uma consequente emissão de gases do efeito estufa que o País levaria
mais de 200 anos para compensar, diz estudo publicado no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). O
trabalho, realizado por pesquisadores de instituições da Alemanha e das
Nações Unidas, foi encabeçado por um brasileiro, David Lapola, que já
atuou no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e atualmente
está no Instituto Max Planck da Alemanha. "O débito
de carbono significa que o biocombustível, em vez de reduzir as
emissões de carbono, se comparado a combustíveis fósseis na verdade
aumenta as emissões por meio de mudanças de uso da terra", explica
Lapola. O estudo simula cenários em que, para elevar a
produção de biocombustíveis em 35 bilhões de litros até 2020, a área
plantada com soja aumentaria de 191.000 km², em 2003, para até 285.000
km², em 2020. A de cana iria de 55.000 km² para 90.000 km². "A maior
parte da expansão de cana-de-açúcar no Brasil, nos últimos 5 anos,
ocorreu em terra previamente usada como pastagem nos Estados do
Sudeste", diz o artigo. "O mesmo é verdade para mais de 90% das
plantações de soja na Amazônia após (...) 2006". Se
esse padrão de substituição do gado por plantações que servem como
fonte de biocombustível se mantiver, e a produção de carne continuar a
aumentar para suprir a demanda da população crescente, os autores
argumentam que serão necessários quase 3 milhões de km2 de pastagens no
Brasil em 2020 - 44% a mais que em 2003 - e que parte dessa área
possivelmente será subtraída do Cerrado e da Floresta Amazônica. A
devastação resultante geraria emissões de CO2 que só seriam compensadas
por séculos de uso de biocombustíveis. "Uma
possibilidade seria diminuir as exportações de carne, talvez", diz o
pesquisador. "Mas também acho isso improvável, pois as exportações vêm
aumentando bastante nos últimos anos e é um setor bastante lucrativo." Variação
proporcional estimada na área ocupada pelos tipos de vegetação e de
produtividade da pecuária entre 2003 e 2020, se acordo com os dados
apresentados no estudo publicado na PNAS Ele
explica ainda que "o tempo, em anos, para se pagar o débito de carbono
varia dependendo do tipo de biocombustível". "Por exemplo, o biodiesel
de dendê geraria, até 2020, um débito de carbono bem menor que o
biodiesel de soja, e o tempo de pagamento também seria bem menor para o
dendê, por conta do maior conteúdo de biodiesel que pode ser produzido
em cada hectare, comparado com a soja", afirma. As
alternativas para evitar que as culturas de biocombustível acabem
agravando o problema que deveriam evitar, de acordo com o artigo,
seriam incentivar o uso de biodiesel de dendê em vez do de soja - "a
produção no Brasil ainda é pequena e pode ser expandida para áreas sem
florestas", diz o texto - ou por um aumento na produtividade da
pecuária, com cada hectare sustentando mais reses, o que reduziria a
pressão pela abertura de novas fronteiras para a criação de gado. Apesar
das dificuldades à frente, Lapola se diz otimista. "Esse problema de
mudanças de uso da terra e biocombustíveis pode ser resolvido com uma
intensificação da criação de gado no Brasil", afirma. "Já existe uma
discussão, anterior ao artigo, no sentido de se otimizar a criação de
gado no Brasil." PECUÁRIA Segundo
o professor da Universidade de São Paulo José Goldemberg, ex-secretário
de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, já tem ocorrido um aumento da
produtividade na pecuária. "No caso do Estado de São
Paulo, onde 60% do total de etanol no Brasil é produzido, passou-se de
1,28 cabeça por hectare em 2001 para 1,56 em 2008. Apesar da falta de
estatísticas em nível nacional, dados do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, em 2006, havia 1,29 cabeça
por hectare", diz. Assim, de acordo com ele, os dados apresentados numa das tabelas do estudo, de 0,7 cabeça por hectare, está incorreto. Ele
faz outras críticas ao estudo. Uma delas é que não fica claro se os
autores estão cientes de que "metade da área de cana é dedicada à
produção de etanol e os outros 50% para a produção de açúcar". Goldemberg
afirma que, atualmente, uma área de 4 milhões de hectares de cana é
utilizada para produzir 25 bilhões de litros de etanol no Brasil. "Os
autores afirmam que, até 2020, e uma área adicional de 5,7 milhões de
hectares seria necessária para cumprir as metas de produção do governo.
O aumento por ano é muito menor que as taxas de desmatamento na
Floresta Amazônica, que são da ordem de 2 milhões de hectares por ano.
A produção de soja e pecuária são indutores do desmatamento em si, não
relacionados à expansão da cana." AVAL AMERICANO Goldemberg
considera que o estudo não irá atrapalhar a imagem do etanol brasileiro
no exterior. Ele lembra que a EPA (agência ambiental americana)
classificou na semana passada o álcool produzido a partir da
cana-de-açúcar como "biocombustível avançado". "O etanol reduz as
emissões de gases de efeito estufa em 61% em comparação com a
gasolina." Ele também ressalta que o governo federal
e alguns governos estaduais criaram um zoneamento ambiental que
determina as áreas onde as lavouras de cana podem ser cultivadas. Além
disso, as novas áreas, em cada caso, devem ser licenciadas pelos órgãos
ambientais. Lapola lembra que se tem se falado muito em
rastrear toda a cadeia produtiva do gado. "Assim, o consumidor teria o
poder de recusar carne proveniente de desmatamento, e os desmatadores
seriam, mais cedo ou mais tarde, excluídos da cadeia produtiva, como
aconteceu com a moratória da soja na Amazônia a partir de 2006. Se foi
possível para a soja, também é possível para o gado", opina. Desde
o início do mês os frigoríficos, curtumes e exportadores do Pará só
podem comprar gado de fornecedores que apresentarem a inscrição no
Cadastro Ambiental Rural (CAR). Esse é o resultado de um acordo feito
entre o Ministério Público Federal do Pará e as empresas por meio de um
Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado em julho de 2009. Até
agora, porém, menos de 6 mil das cerca de 110 mil fazendas do Pará
(cerca de 5%) se registraram. Segundo o Greenpeace, "o cadastro é o
primeiro passo para regulamentar a propriedade do ponto de vista
ambiental, e o número demonstra o descaso com que uma parte do setor
ainda trata a questão".