
08.02.10 - 16:22
O número dois do braço da rede terrorista Al Qaeda no Iêmen, Said al
Shihri, conclamou nesta segunda-feira, 8, seus partidários e os muçulmanos
em geral a atacarem "em todo o mundo os interesses americanos e cruzados
[cristãos]" e anunciou a ambição do grupo de assumir o controle de um
estreito estratégico na entrada do mar Vermelho.
Em duas mensagens de mensagem de áudio publicadas nesta segunda-feira
por um site islâmico popular entre extremistas e pela rede Al Jazeera,
Shihri exortou os muçulmanos a "proclamar a jihad" --guerra santa.
"Os interesses americanos e cruzados estão em todo o mundo, e seus
agentes se deslocam constantemente. Ataquem-nos, e eliminem o maior
número possível de inimigos", clamou Shihri, um ex-detido de Guantánamo
que é um dos comandantes da Al Qaeda na Península Arábica, o nome que o
braço iemenita da rede terrorista adotou no ano passado, após anos de
repressão aos afiliados na vizinha Arábia Saudita.
Shihri acusou "os cruzados e os sionistas" de conduzir uma "invasão
raivosa" do Iêmen, e pediu às tribos, muito influentes e que controlam
amplas regiões do país, que "ataquem os agentes que conspiram com os
cruzados contra os muçulmanos".
Ele citou especificamente a tribo do imã radical iemenita Anwar al
Aulaqi, autoridade procurada pelos americanos.
Dirigindo-se aos demais habitantes da península Arábica, ele afirmou que
"os xiitas, os judeus, os cristãos e os governantes traidores e
apóstatas se uniram contra vocês". "Vocês não têm outra escolha a não
ser a jihad", sentenciou.
Além disso, Shihri proclamou pela primeira vez a ambição da Al Qaeda de
assumir o controle do estreito estratégico de Bab al Mandeb, na entrada
do mar Vermelho, por onde passa grande parte do comércio internacional,
inclusive petrolífero, rumo ao canal de Suez, que leva ao Mediterrâneo.
"A guerra contra os muçulmanos na Península Arábica foi planejada há
muito tempo por meio de conferências internacionais [...] Se
conseguirmos tomar o controle de Bab al Mandeb e trazê-lo de volta para o
Islã, teremos conquistado uma grande vitória", afirmou. "É por este
estreito que a América traz seu apoio aos judeus."
A ameaça não teve efeitos aparentes sobre o preço do petróleo, mais
suscetível nos últimos meses às notícias sobre a recuperação das
economias mundiais após a crise financeira. Em Nova York, o barril era
negociado em torno dos US$ 70, abaixo dos US$ 77,23 do fechamento de 2
de fevereiro, o mais alto desde então.
Shihri ainda agradeceu aos "irmãos" do Al Shebbab, rebeldes islâmicos da
Somália, pela "proposta de enviar tropas".
"Cooperemos, cada um em sua frente, em nossa batalha contra a América,
pois estamos dos dois lados de Bab al Mandeb", declarou.
No dia 1° de janeiro, os shebbab somalis se disseram dispostos a enviar
combatentes ao Iêmen para ajudar seus "irmãos" a combater os "inimigos
de Alá". A região da entrada do mar Vermelho é a área que concentra
também a maioria dos ataques do piratas somalis.
Para os Estados Unidos, Shihri repetiu as palavras de Osama bin Laden:
"Vocês não poderão sonhar com segurança até que a segurança seja uma
realidade na Palestina".
As atividades dos extremistas no Iêmen chamaram a atenção mundial depois
que a rede Al Qaeda no país reivindicou responsabilidade pela tentativa
fracassada de explodir o voo 253 da Northwest Flight nos EUA no dia de
Natal de 2009. Segundo a Al Jazeera, Shihri afirmou que a tentativa de
atentado contra o avião foi executada em coordenação direta com Osama
bin Laden.
No entanto, a cadeia não divulgou a parte da fita onde estão estas
declarações. Em 24 de janeiro, a Al Jazeera divulgou uma mensagem
gravada de Bin Laden, na qual ele assumia a autoria do atentado
frustrado.
Shihri elogiou o responsável pelo atentado frustrado, o nigeriano Umar
Farouk Abdulmutallab, e disse que os dirigentes da Al Qaeda e os
mujahedins na península Arábica estão todos bem de saúde, em referência a
informações do governo do Iêmen sobre suas mortes.
O governo iemenita recebeu apoio ocidental mais forte depois a tentativa
de ataque ao voo 253, e as autoridades do país disseram ter matado
dezenas de membros da Al Qaeda em dois ataques recentes.
Analistas temem que o Iêmen entre em colapso devido a uma rebelião xiita
no norte do país, a um movimento separatista no sul e à Al Qaeda. Um
dos países mais pobres fora da África, o Iêmen é um dos redutos da rede
terrorista, apesar das campanhas de segurança iniciadas pelas
autoridades contra a organização comandada pelo saudita Bin Laden, cuja
família paterna é iemenita.
O braço da rede Al Qaeda no Iêmen publicou no ano passado um vídeo na
Internet em que anunciou a mudança de seu nome para Al Qaeda na
Península Arábica, em uma aparente tentativa de revitalizar o grupo
terrorista na Arábia Saudita, país em que esteve sob forte repressão.
Em suas mensagens divulgadas nesta segunda-feira, o líder da rede no
Iêmen criticou duramente a família real da Arábia Saudita por seu
empenho no combate ao grupo: "Estes criminosos, os Al Saud, são os que
conduzem a guerra contra os muçulmanos no lugar dos sionistas e dos
cruzados."
O regime saudita, que governa as duas cidades mais sagrados do islã
--Meca e Medina-- mantém um estrito controle social e religioso,
seguindo o rígido movimento wahhabita, e combate a Al Qaeda desde maio
de 2003, quando terroristas do grupo lançaram bombas contra o país.
O próprio Bin Laden, filho de um empreiteiro iemenita que enriqueceu a
serviço da família real saudita, fazia parte da elite saudita e saiu do
país no início dos anos 90 quando sua oposição à presença de tropas
americana em solo saudita transformou-se em desafio aberto ao governo.
No ano passado, após uma longa repressão, a Al Qaeda deu alguns sinais
de força na Arábia Saudita. O mais importante aconteceu no último dia 27
de agosto, quando um terrorista tentou matar o vice-ministro de
Interior, príncipe Mohammed bin Nayef Abdel Aziz, detonando os
explosivos que tinha dentro de seu corpo. O príncipe sofreu ferimentos
leves.