
08.02.10 - 11:11
A vida útil de um computador não termina quando surgem novas
tecnologias. Com algum conhecimento de informática, automação e
um toque de gambiarra, é possível "ressuscitar"
equipamentos eletrônicos tidos como acabados. Em oficinas organizadas pelo movimento MetaReciclagem em um
prédios do Parque da Juventude, na Zona Norte de São Paulo,
centenas de pessoas aprendem a "aproveitar melhor a tecnologia".
"A gente trabalha com material que está sendo
subutilizado. O lixo eletrônico só é lixo porque alguém não
encontrou um jeito apropriado de utilizá-lo. Quando se encontra
o modo harmônico de utilizar esse lixo, ele se transforma em
material de oficina, de aprendizado, de desenvolvimento",
diz Ricardo Guimarães, de 21 anos, técnico em automação que faz
parte do grupo. Veja fotos de objetos feitos com lixo eletrônico Muitos computadores doados para o MetaReciclagem funcionam, mas
ficaram defasados. "De dez computadores que chegam, se
cinco funcionam mais ou menos, a gente consegue tirar material
dos outros e montar um que funcione perfeitamente",
exemplifica Guimarães. As máquinas recicladas são doadas a
entidades, organizações ou cooperativas que participam das
oficinas.
Coletivo de designers aposta na gambiarra
Em Minas Gerais, um grupo de designers também usa a gambiarra
para criar desde 2008. Em uma oficina de Belo Horizonte, o
coletivo Gambiologia
transforma lixo em diversão. Um dos objetos preferidos de Lucas
Mafra, um dos integrantes do grupo, é um Atari Punk Console
feito a partir de uma caixa de charutos. A caixinha, capaz de
emitir sons semelhantes aos do videogame Atari 2600, tornou-se
um clássico do "faça você mesmo", com tutoriais
divulgados em sites como o YouTube. "A gambiarra é uma ode ao improviso e à livre invenção.
Especialmente para nós, brasileiros, essa habilidade para
reinvenção de objetos do cotidiano surge de forma muito
natural", analisa Fred Paulino, que classificou o momento
atual de descentralização do conhecimento como "Período
Gambiolítico".
Além de servirem para montar "novas
máquinas", as peças que ainda funcionam podem ser
transformadas em robôs. Nas oficinas de robótica, os alunos
aprendem sobre mecânica, eletrônica, software livre e
programação. Quando não serve mais como peça de um equipamento
eletrônico, a sucata digital vira arte na mão de pessoas como
Glauco Paiva, que também ministra oficinas.
"O que não é reciclado a gente vai
transformando em outras coisas. Trabalhamos muito com a
gambiarra, com a vontade de cada um de produzir, com como a
gente torna isso uma coisa bacana e devolve para sociedade com
uma cara legal. Acho que essa é a grande pegada da
oficina", analisa.
O grupo também vê a reciclagem de equipamento
eletrônico como uma alternativa ao descarte. "Vivemos em
uma cultura cada vez mais consumista, onde somos praticamente
obrigados a ter equipamentos sempre atualizados. A Gambiologia é
uma forma de repensar esse consumo, transformando resíduos em
desuso em produtos funcionais ou não, mas sempre inovadores, com
a estética gambiológica", define o designer.