Porto Alegre - Sexta-feira, 10.09.10
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Cris Berger
Repórter Fotográfica

Direto do Chile

Queridos leitores e telespectadores!

Vos escrevo de Santiago do Chile. O mundo teve seus olhos voltados
para o grande terremoto que nos tocou no dia 27 de fevereiro. Eu
estava na capital chilena à trabalho, era madrugada, em algumas horas
mais eu iria para Valparaiso, uma cidade portuária, famosa pela casa
de Pablo Neruda que hoje é um museu aberto a visitação.  Na porta do
apartamento em que eu estava hospedada ficou  meu equipamento de fotos
esperando o dia clarear. Mas muito antes disso nosso sono foi
interrompido por um forte tremor de terra que nada parecia com os
anteriores – abalos sísmicos no Chile – são absolutamente comuns. A
questão é que o tremor se tratava de um terremoto que atingiu o grau
sete na escala de Richert.

Além da sua força – o mesmo terremoto devastou o Haiti – ele teve uma
duração que parecia nunca terminar, durante um minuto e trinta
segundos vimos as paredes ganharem vida, os quadros vieram ao chão, os
móveis despencaram, objetos quebraram e para se manter de pé era
necessário se segurar nas paredes.

Ao parar o grande tremor ficou apenas o vai e vem suave de quando um
balanço perde o embalo e o pior de tudo: o som ensurdecer da laje se
partindo. Um momento em que nada pode ser feito ao se estar no nono
andar, não há para onde correr, o que se faz é esperar. Nestes
segundos se está certo que o prédio pode vir abaixo, o ar nos falta e
rezamos para que possamos sair vivos dali.

Assim que o prédio parou definitivamente descemos correndo pelas
escadas, descalços, assustados, juntos com outros vizinhos. Aquela
noite ninguém mais dormiu, a espera por uma réplica se deu durante
todo o dia e sentimos várias, mas desta vez bem menores.

O clima em Santiago foi de um silêncio bem comportado, mas cheio de
receios. Sábado e domingo as ruas estavam vazias, as autoridades
pediram que as pessoas ficassem dentro de casa. Era o momento de
avaliar as conseqüências causadas pelo movimento das placas tectônicas.

A segunda já começou mais animada. Apesar do começo do ano letivo ter
sido adiado por uma semana o trânsito estava intenso e boa parte das
pessoas indo trabalhar. Santiago foi pouco atingida, os prédios, boa
parte deles, mostraram que foram construídos com sistema anti-sísmico,
ou seja eles estão preparados para receber este tipo de movimentação..
Apesar das rachaduras pelas paredes, principalmente dos corredores os
danos materiais se deram mais dentro das casas em relação a objetos e
móveis, as fachadas estão quase que intactas.

O país é de uma organização impressionante. Terça-feira saí a
entrevistar pessoas nas ruas e procurar histórias e percebi muito
cordões de isolamento, mas os escombros não estavam mais lá, haviam
sido varridos. Onde observei uma demora indecente foi no atendimento
do consulado brasileiro que só começou a funcionar no começo da tarde
de segunda. Liguei para Embaixada e Consulado e o problema dos
brasileiros presos em solo chileno devido o aeroporto estar fechado
parecia uma batata quente que um jogava para o outro.

Hoje, quarta-feira, o aeroporto volta a funcionar parcialmente, na
sexta melhora o fluxo de vôo, mas ainda vai levar um tempo para tudo
estar em ordem. É um momento em que se deve ter calma e saber esperar.
O consulado parece estar mais organizado e conseguindo atender melhor
os brasileiros. Eles estão instalados no prédio da Embaixada do Brasil.

Trinta passageiros embarcaram no avião da Força Aérea Brasileira que
acompanhava a aeronave presidencial na visita do presidente Lula a
Santiago na segunda-feira. O critério da Embaixada na escolha dos
passageiros foi de que seriam pessoas idosas, doentes, mulheres
grávidas e com crianças. Gozado, não foi exatamente isso que vi na
fila de embarque. Será que eu enxerguei bem?

Lula veio prestar solidariedade a presidente Michelle Bachelet. Na
coletiva disse que queria saber exatamente quais eram as necessidades
do país para que o Brasil pudesse enviar ajuda. Pensei com meus
botões: ele não poderia ter feito isso por telefone? Enfim, deve ser
um importante ato político, certo?

Perguntei ao presidente qual mensagem ele poderia deixar aos
brasileiros que se sentem angustiados sem saber quando podem voltar
para casa e a resposta foi: se o aeroporto não reabrir rapidamente,
mandaremos aviões buscar os brasileiros. Vai, mesmo, Lula? Olha que
são 700.

Ok que muitos estão regressando a casa por via terrestre, por Mendoza
– diga-se de passagem, uma bela viagem. De lá voando para Buenos Aires
e Brasil. Inclusive tenho aconselhado a ficar uma, duas noites em
Mendoza que é uma cidade encantadora.

Em relação a vida hoje em Santiago, ela parece normal, que nunca ouve
terremoto. Os tremores diminuíram muito, o que eu agradeço, as duas
primeiras noites pós tremor dormi no carro porque não agüentava as
balançadas do nono andar (em cima se sente bem mais). As prateleiras
nos supermercados estão mais vazias, se pode perceber um receio, há
muitos bairros sem água, luz e gás. Eu tive a super sorte de estar
numa rua em que nada disso foi cortado, apenas no primeiro dia.

Pode parecer estranho, mas cada vez mais gosto deste país, de sua
organização e eficiência. Para mim Santiago é uma das cidades mais
lindas do mundo, um lugar para viver, não apenas visitar, quem sabe um
dia fico de vez por aqui?

Para quem tem viagem programada para cá, meu conselho é: deixem passar
o mês de março, o país precisa deste tempinho para colocar a casa em
ordem, depois venham sem hesitar, de norte ao sul ele é lindo e o povo
super amistoso.

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